domingo, 30 de novembro de 2014

Pequenas histórias e dicas de Cuba (Parte I)



Esta praia, com água quentinha, está há poucos minutos de La Habana...

Primeiro, é preciso dizer que Cuba é meu lugar preferido em todo o mundo. Sim, eu moraria em Cuba. Sim, estou cogitando ir!!!!


Eu estive em Cuba durante dois meses, novembro e dezembro de 2012. Fui como bolsista da Unesco para fazer uma pós graduação no Instituto Internacional de Periodismo José Martí. Fiquei hospedada no hotel da Escola, onde dormíamos, comíamos e dançávamos :)
Tive muitos e maravilhosos amigos cubanos, então a minha visão e as minhas dicas é de alguém que não esteve em Cuba como turista. De alguém que era, em 95% do tempo, confundida com uma cubana, de alguém que cruzou o país e conheceu uma realidade um pouco diferente de Varadero.
Mas, vamos lá para as dicas, que são o mais importante!

Melhor época para ir a Cuba
O ano inteiro. Cuba é uma ilha muito pequena e, relativamente, barata. Eu estive lá no suposto inverno, com temperaturas de 20 graus. A água continuava morninha, as praias não estavam tão lotadas. Mas é uma época na qual chovem turistas dos lugares frios, tipo Islândia, Noruega, Groenlândia, etc. Mas não é o verão. É um tempo agradável, eu diria. Você vai precisar de um casaquinho leve para a noite, se for friorento. E é também o mês do Festival Internacional de Cinema de La Habana. A maravilha das maravilhas.

Hospedagem
Há três opções. Hoteis, casas de família e hostels. Os últimos, em menor número. Os hoteis custam cerca de 35 euros, as casas de família 25 e os hostels, pelo menos o que eu fiquei, custava uma merreca de 8 euros.
Mas se você procurar pela internet, não vai achar assim tão fácil. A melhor maneira de encontrar um bom lugar para ficar em Cuba é mesmo falando com alguém que lá esteve.
Então, eu vou te dar a dica:
O nome da senhora é Magnólia Alonso e ela tem um perfil no Couch Surfing: https://www.couchsurfing.com/users/4360076/profile
Hamel Hostel.
Owner: Magnolia
Hospital # 308 between San Lázaro and Hamel
Centro Habana, Cuba
Phone: 8734222
Area Code: (+53) 7
Postal Code: 10200

O local está em frente ao Callejón Hamel, uma ruazinha cheia de cubanidade. Com muita música, restaurante dos Orishas, gente jogando caracoles, etc. Fica em Habana Centro, um local velho e cheio de charme. Ela é uma flor de pessoa, te oferece café da manhã (bem baratinho), almoço, conversa, etc. Morando por aqui, você encontrará comércio típico cubano e tudo sairá mais barato, mas precisará ter o peso cubano contigo, não o CUC. Bem, vamos falar do CUC agora....



Um país, duas realidades
Eu não vou fazer nenhuma análise sociológica da questão cubana. Vou só dar mesmo algumas dicas e o que pensar fica por conta de cada um. Cuba é um país com duas moedas. Segundo contam meus amigos de lá, houve um tempo no qual a economia começou a ser dolarizada. E também devido ao turismo, o governo resolveu criar duas moedas, pois toda a vida em Cuba é bastante financiada pelo governo. Já que os salários são baixíssimos, os cubanos pagam nada ou muito pouco por diversos itens, como transporte, alimentação, ócio, etc.
Bem, então há duas moedas. O CUC (peso cubano convertível) está vinculada ao euro. Vale relativamente o mesmo. É uma moeda que deveria circular mais no turismo....mas...bem.... Já o peso cubano é a moeda nacional cubana. O câmbio é mais ou menos o seguinte:

1cuc = 24 cup (pesos cubanos)
1 cuc = 1,25 euros
1 euro = 30 pesos cubanos


Um almoço como este custa em torno de 25 pesos cubanos.

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Se você pretende vir a Buenos Aires, há dez coisas que precisa saber!
1. Que as “heladerias” são as sorveterias são dos italianos e é ordem provar o sorvete de doce de leite;

2. Que as “verdulerias” são uma mistura de verdurão e frutaria e são de peruanos ou bolivianos. Bem, também não há muitas frutas ou verduras. Banana, mamão e manga são artigos de luxo;

 3. Que os “chinos” não se resumem às pessoas que nasceram nesse longínquo país, mas também denominam os supermercados de bairro que, por sua vez, são de propriedades dos chineses;

 4. Que “kiosko” é a vendinha da esquina, aquela onde você vai encontrar todo tipo de porcaria, como balas, doces, cigarros, etc, e que seus donos são argentinos, muitas vezes não tão bem humorados quanto os italianos, peruanos, bolivianos e chineses;

5. Que uma “Ensalada completa” não é COMPLETA. Vai ter: alface, cenoura, tomate, ovo cozido e, às vezes, beterraba. E quando você perguntar cadê as outras coisas pra ela ficar completa o garçom vai te olhar com aquela cara de “onde esse cara pensa que tá?; 

 6. Que o “ll” e o “y” tem o mesmo som e, bem, se você não estudou espanhol com um argentino ou um uruguaio não vai entender um caralho (o un catso – é, eles vivem falando algumas coisinhas italianas, como se estivesse na itália....) nenhum. 

7. Que a carne é muito boa, assim como as empanadas e as massas. Mas o resto é o resto. Então se você é vegetariano, troque sua passagem e vá tirar férias em outro lugar;
8. Que a cerveja se serve quase gelada. É, quase gelada mesmo. Mesmo no verão. E não adianta olhar de cara feia. E é de um litro, colega. Aquela cerveja vestida de noiva que refresca até a alma só no Brasil mesmo. E o brasileiro, ingênuo, pergunta pro garçom:
- no tiene camisita de la cerveza???
- Como? Camisita? 
- Sí, sí, es como una ropita para no calentar. 
- Ahhhh, tegopor!? 
- Isso, Isso, para que no se ponga caliente. Hace muito calor agora....
- hummm, no, no hay señor. 

9. Que eu deveria ter avisado antes, mas que se voce pretende comer em um restaurante, tenha paciência. Aqui eles “disfrutam” o prazer de comer. E também de esperar.

10. Que os homens se beijam no rosto e nem por isso são gays. Eles acham bonitinho e carinhoso.

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

A última vez em que eu me apaixonei
- Joana, mas você se apaixona rápido demais. Você não sabe o que é se apaixonar de verdade. - Ai, mas você acha???? Mas eu nem me apaixono tantas vezes e tão rápido assim. - Ah, é? Então qual foi a última vez que você se apaixonou? - Uai.... - Conta. - Tá, tá, vou contar. - Foi no mês passado. - E? - E quê? - Em quanto tempo se apaixonou? - Umas duas horas. Mas duas horas é um tempo razoável. (risos) - Ai, Joana. - Mas ele era envolvente, ele era diferente de todos os outros caras que conheci. Sabe, foi daquelas histórias de filme. Eu sempre me apaixono nesses casos, né? Mas eu não resisti. Ele sentou do meu lado no ônibus, haviam mil lugares, mas ele escolheu justamente o meu. E eu não pude resistir, ele era um haitiano de 1,90, negro. Era um deus negro. Nunca vi um homem tão bonito em toda a minha vida. E fomos conversando, conversando, aquela mistura de castellano com francês e crioulle estava me matando. Mas caí mesmo de amores quando ele começou a falar crioulle, era tão doce....e me dizia pra olhar as estrelas. Fiquei perdidamente apaixonada. Nos pedimos no terminal rodoviário de Córdoba e nunca mais nos vimos. Passei toda a viagem suspirando. E ficou. Minha paixão de 2h. - Você é engraçada e louca. - Você deveria se apaixonar mais. É gostoso, que nem chocolate.

terça-feira, 7 de junho de 2011

Mapuches em greve de fome há 85 dias!

Quatro presos políticos mapuches completam hoje 85 dias da greve de fome, iniciada no último 15 de março, como protesto ao julgamento parcial que receberam, à condição de preso político e a todos os vícios que envolvem o processo. Jonathan Huillical Méndez, Jose Huenuche Reimán e Ramón LLanquileo Pilquimánoram haviam sido condenados a vinte anos de prisão por uma tentativa de homicídio e o roubo a um agricultor, em 2008. Entidades de direitos humanos contestam a validez das provas e do julgamento dos mapuches.
Na última sexta-feira, 03 de junho, eles tiveram suas penas revistas pela justiça chilena. As penas foram rebaixadas para três anos, exceto a de Héctor Llaitul Carillanca, ex dirigente da Coordenadora Arauco Malleco (movimento que organiza a luta mapuche no Chile), foi sentenciado a quatro anos, mas antes deve cumprir outra condenação de cinco anos. O rebaixamento das penas é, sem dúvida, uma resposta às intensas manifestações que vem sendo realizadas no Chile e no exterior. Diversas organizações condenam a perseguição do Estado chileno aos mapuches. No Chile ainda vigoram leis antiterroristas da época da ditadura militar. No caso dos mapuches, foi usado o recurso de testemunhas sem rosto. Atualmente, há mais de cinquenta presos políticos mapuches no Chile e muitos mapuches passaram à clandestinidade para seguir com sua luta por autoderteminação.
Segundo o último informe médico, realizado em 29 de maio, Héctor Llaitul Carrillanca de 43 anos, perdeu 23kg, e Jonathan Sady Huillical Méndez, de 23 anos, perdeu 21kg. Os dois estão seriamente desnutridos. Jose Huenuche Reimán e Ramón LLanquileo Pilquimánoram estão hospitalizados e não há maiores informações sobre o estado de saúde deles. Na próxima edição de AND, veja a cobertura completa.

quarta-feira, 18 de maio de 2011

Pequeño guia de turismo de Buenos Aires (a ótica de uma brasileira)

Os lugares imperdíveis, na minha opinião.

1. La Boca: conhecer o caminito, o lugar mais charmoso da cidade.
2. Puerto Madero: um bom lugar pra dar uma caminhada no final da tarde e na noite.
3. Cementerio de la Recoleta. Meio mórbido, mas tem que ir. É arte funerária, digamos assim. Não faz meu tipo, mas se você achar muito down, pode sair correndo e dar um pulo no Centro Cultural Recoleta, que fica ao lado e um museu fantástico!
4. Feria de Mataderos. É longe pra caralho, mas vale a pena. Lá você vai se sentir numa cidadezinha pequena. É cheio de gente sorrindo e simpática, nem parece Buenos Aires! Muita gente dançando chacarera e zambas, comidas típicas e artesanatos.
5. San Telmo. Ótimo lugar. É a Lapa porteña. Claro, sem os cariocas, o que perde metade do brilho. Mas lá você vai encontrar bons bares, muita música, gente meio hippie fazendo som na rua. É preciso ter cuidado ao andar sozinho e com a grana. É a Lapa argentina, já disse...
6. Manzana de las luces. Eu nunca fui, mas todo mundo diz que é ótimo, então vou listar. Mas eu vou, prometo pra mim mesma!
7. Casa rosada. É o palácio do governo. É óbvio que tem ir lá e tirar uma foto tipo “aloha, eu estou em Buenos Aires!”. É um prédio bonitinho, a plaza de mayo fica em frente e também é um lugar que deve ser visitado.
8. Obelisco. É o marco de fundação da cidade, fica entre a Av. Corrientes e 9 de Julio, as principais da cidade.
9. Teatro Colón. Maior teatro da cidade e um dos maiores da América Latina. Chiquérrimo, gente. Fundado em 1857. Nunca fui e nem faz meu tipo, mas tem muita história e quem quiser, acho que vale a pena conferir.
10. Avenida Corrientes. Acho essa avenida o máximo. Pulsa 24h! É incrível. Teatros e livrarias abertos 24h e cheios de gente. Filas gigantescas pra cinema, teatros e cafés. É supreendente.

Bem, é só isso. Eu acho Buenos Aires, turisticamente, uma cidade pra três dias. E se você tem uns diazinhos a mais no bolso, pode aproveitar pra dar um pulo em Colônia (viagem de um dia) ou em Montevideo (pra uns três dias) ou em Tigre (um dia, a Piri argentina!). Mas quem quiser conferir e ir em mais lugares, tem museu pra caralho. E pode conferir mais coisas em:

MAPAS DE CIRCUITOS TURÍSTICOS
CIUDAD DE BUENOS AIRES

Centro de Buenos Aires
Centro Mapa General >>>
Casco Histórico >>>
Av. Corrientes >>>
Av. de Mayo >>>
La Boca en Buenos Aires
Circuito La Boca >>>
Palermo en Buenos Aires
Palermo Mapa General >>>
Palermo Bosques y Lagos >>>
Palermo Chico >>>
Palermo Soho, Viejo y Hollywood >>>
Puerto Madero en Buenos Aires
Circuito Puerto Madero >>>
Recoleta en Buenos Aires
Circuito Recoleta >>>
San Telmo en Buenos Aires
Circuito San Telmo >>>

Dar um up na vida!

Tem hora que é preciso dar um up na vida.
Ou seja, parar de reclamar e colocar o corpo e a mente em movimento.
Desde que voltei a Buenos Aires estou procurando viver esse momento.
Já me sinto bem mais familiarizada à cidade e por mais que hajam coisas que eu deteste, tem coisas que eu adoro e preciso vivê las. Então acabou essa onda de reclamar e agora a onda é aproveitar, disfrutar, afinal só tenho mais uns meses por terras porteñas.

Pra ajudar nesse novo ritmo, nessa nova visão, estou procurando fazer muitas coisas que me fazem bem, coisas que me dão prazer (não tô falando de sexo,gente!).
Estou aproveitando a vida cultural dessa cidade que é simplesmente demais.
Desde que cheguei já fui: Noche en vela (uma noite onde toda a cultura da cidade fica à disposição até as 7 am! foi incrível), três festivais de cinema, viajei a Montevideo, Festival Polo Circo, e não lembro mais, mas tenho saído muito....

E a parte física: me matriculei no Megatlon, a maior academia da cidade. Voltei ao pilates de solo, e comecei yoga e streetching (que é o melhor). Tentei a piscina, mas achei a água fria pra mim...rererere

Mas é isso. Alimentando a cabeça, a alma e o coração. Construindo novas maneiras de socializar por terras argentinas, mas com muita saudade do Brasil.

Um bjo, gente.

quinta-feira, 5 de maio de 2011

Novos e velhos paradigmas

Engraçado como às vezes nos encantamos tanto com novos paradigmas, com novidades que surgem do nada e pensamos: era isso que faltava na minha vida.
E você vai tentando viver esse novo paradigma.
Até que um dia se dá conta de que ele já não é mais tão novo assim e que não tem a menor graça.
Você vê que o que está dentro de você, impregnado, como ferro na sua alma, é aquilo que você sempre foi e achou que poderia mudar com a chegada do novo paradigma.
O que estou querendo dizer é que eu estou de volta. Ainda meio com preguiça (ou um pouco de medo) da profundidade, mas certamente com um pouco de nojo da superficialidade.

terça-feira, 26 de abril de 2011

“Achei que não fosse viver para ver isso”



Ana Lúcia Nunes


Alguns dias depois de chegar a Argentina, recebi um convite inusitado: viajar 4h para assistir a um julgamento. O convite, feito por Adriana Arce, não era para assistir a qualquer julgamento, mas ao julgamento dos militares que a prenderam e torturaram, em Rosário, na década de 70, quando ela era uma militante popular. Adriana, assim como milhares de argentinos hoje, queria olhar nos olhos dos mesmos militares e sentir o gosto de vê-los pagar pelos crimes que cometeram. É a mesma sensação de Adriana Beatriz Mordacini, cujo depoimento assisti num dos tribunais de Buenos Aires, meses depois, e das incasáveis Madres, que acompanham todos os julgamentos, dos familiares, amigos e da população argentina, que se sente orgulhosa de, pelo menos, estar julgando aos genocidas.
Durante o julgamento em Rosário, a emoção era visível nos olhos, gritos e palmas que se repetiam a cada sentença que era proferida. O Tribunal Federal n°1 de Rosário sentenciou a prisão perpétua a cinco genocidas, que devem cumprir a pena em prisões comuns. Com os rostos tapados e com um forte esquema de segurança, os torturadores deixaram o Tribunal direito para a prisão. Mas, antes, afirmaram em bom som a várias de suas vítimas que já sabiam como reverter a situação e que não ficariam presos. Eles sabem que, a exemplo do que ocorreu em 1985, a sentença pode ter uma vida muito curta. Enquanto isso, em frente ao Tribunal, centenas de pessoas comemoravam a condenação dos genocidas e era comum escutar a frase “Eu achei que não fosse viver para ver isso”.
Ao todo, desde 2006, foram reabertas mais de mil causas em todo o país contra os envolvidos na ditadura militar. Destes, 783 já foram processados, cerca de 200 condenados, quase todos à prisão perpétua ou a penas de 25 anos de prisão em regime fechado. Neste ano, estão previstos o início de nove causas e a continuação de várias que estão em andamento. Os condenados são principalmente militares das Forças Armadas e Forças de Segurança, mas também há civis sendo julgados.

A lei de obediência e do ponto final
Não é a primeira vez que os militares envolvidos na ditadura argentina são julgados. Em setembro de 1983, antes de deixar o poder, eles promulgaram a “Lei de auto-anistia”, tanto para os que promoveram a ditadura quanto para os que lutavam contra ela, exemplo que o Brasil trataria de seguir dois anos depois.
Em 30 de outubro deste ano, a União Cívica Radical, partido de centro direita, chegou ao poder, através de eleições, com o candidato Raúl Alfonsín. Ainda no mesmo ano, foi publicado o Decreto 158, que obrigava a Justiça argentina a submeter a julgamento à Junta Militar que deu o golpe de estado em março de 1976 e a todos os envolvidos nos crimes de lesa humanidade cometidos no período.
Dois anos depois do final da ditadura, cinco dos nove genocidas que compunham a Junta Militar que governou o pais entre 1975 e 1983, foram processados, julgados e condenados. O processo foi iniciado em abril de 1985 e condenou à prisão perpétua a Jorge Rafael Videla, Eduardo Massera, Ramon Agosti, Armando Lambruschini, e Roberto Viola, e absolveu outros quatro genocidas: Omar Graffigna, Leopoldo Galtieri, Jorge Anaya e Basílio Lami Dozo.
Entre 22 de abril e 14 de agosto de 1985, 833 pessoas testemunharam perante o Judiciário argentino. As histórias de prisões, torturas e demais ilegalidades são muito parecidas as que nós, brasileiros, e milhares de outros latinoamericanos vivemos entre as décadas de 60 e 80. O Tribunal argentino, diante de tantos casos de abusos, resolveu analisar 280, apenas como uma espécie de “amostragem”.
Apesar da condenação de cinco torturadores, havia rumores de que tudo não passava de um pacto secreto das autoridades nacionais com as Forças Armadas para limitar o julgamento a algumas cabeças que não podiam ser defendidas, convertendo o processo em um simbólico Nuremberg, afirmou o atual Secretario de Direitos Humanos, Luis Eduardo Duhalde, em texto de sua autoria publicado no jornal Tiempo Argentino, no último dia dez de dezembro.
Com o desenvolvimento dos julgamentos e investigações para apurar os crimes de lesa humanidade cometidos durante a ditadura militar, setores das Forças Armadas começaram a protestar. A resposta do governo Alfonsín foi a a promulgação da “Lei de Ponto Final”, em 1986, que extinguia a possibilidade de iniciar novas ações penais para apurar os crimes cometidos durante a ditadura em 60 dias. Mesmo assim, os militares continuaram a protestar, pedindo a impunidade completa e saíram às ruas na cidade de Córdoba, a segunda maior do país. A população também saiu às ruas, mas o governo apoiou os militares e promulgou a “Lei de Obediência devida”, em 1987. Com ela, os militares que afirmaram que realizaram torturas, prisões ilegais, e sequestro de bebês sob ordens superiores se tornaram livres de qualquer acusação.
Mas foi o ex-presidente Carlos Menem que se encarregou do maior dos presentes aos genocidas. Em 1990, promulgou três decretos extinguindo toda e qualquer investigação que ainda estivesse em curso no país, além de anular todos os julgamentos já realizados, deixando impune centenas de genocidas. Apesar das leis de impunidade, os movimentos populares e de direitos humanos argentinos continuaram, principalmente, no exterior, movendo ações e exigindo a punição dos torturadores e responsáveis pela ditadura militar no país. Na França e na Espanha, refugiados e filhos de desaparecidos políticos moviam ações penais exigindo a imputação dos responsáveis. Em 2003, o parlamento argentino votou a nulidade das leis de impunidade e as causas começaram a ser reabertas.
Há que considerar sempre a grande mobilização e pressão exercida pelos movimentos populares argentinos, pelas organizações como Madres de Plaza de Mayo, H.I.J.O.S, ex-presos políticos e de familiares que, apesar de toda perseguição, nunca deixaram de se manifestar e de ir às ruas exigindo a punição dos repressores. E mesmo com o desparecimento de duas importantes testemunhas, Julio López – sequestrado há quatro anos - e Sílvia Suppo, os argentinos não se calaram, pelo contrário seguem se manifestando e fazendo uma estridente campanha pela resolução dos desaparecimentos.
O genocídio cometido contra os argentinos marcou fortemente o país por gerações. É impossível caminhar pelo país, principalmente pela capital, Buenos Aires, sem que essa memória não salte aos olhos, seja nas rondas realizadas semanalmente pelas Madres, seja pelas placas que marcam o local de prisão ou moradia dos militantes populares desparecidos, ou pelos monumentos que se espalham pelos bairros da cidade. É um passado que, parece, não querem que seja esquecido, pelo menos não até que todos os torturadores estejam atrás das grades, pagando por seus crimes. E os argentinos sabem que precisarão ser vigilantes para evitar que, mais uma vez, os genocidas fiquem impunes. Os julgamentes podem ser acompanhados pelo site http://www.hijos-capital.org.ar

segunda-feira, 25 de abril de 2011

A política de volta às telas

Dicas de cinema
A política de volta às telas


Desde o final dos anos 70, a política foi lançada ao esquecimento na produção artística. A invasão cultural promovida por Hollywood e por toda a indústria do entretenimento, com seus enlatados, trouxe aos nossos lares, uma arte completamente esvaziada de temas sociais, de realismo, de qualquer análise, interpretação ou representação profunda da sociedade.
Durante os últimos trinta anos, falar de política se tornou démodé. Fazer arte política, uma eresia. Mas, atualmente, muitos artistas - alguns ainda remanescentes da efervescência artístico-cultural que a América Latina viveu nos anos 60 e 70, outros jovens cineastas que retomam o que houve de progressista e revolucionário no cinema – tem retomado a política como tema, processo e ideologia de um fazer cinematográfico.
Dentro de esta vertente, é possível citar algumas boas obras que valem a pena ser vistas. A primeira e mais surpreendente é o documentário francês Qu'ils reposent en révolte (des figures des guerres)”, em português “Quem é responsável pela revolta”, do diretor Sylvain George.
A obra é resultado de três anos de trabalho e convivência do diretor na fronteira entre França e Inglaterra, chamada Calais. Um lugar que se tornou refúgio e porta de entrada de milhares de imigrantes, vindos, principalmente da África. O filme, numa abordagem simples e direta, mostra as estratégias de sobrevivências dos imigrantes, suas condições de vida e a repressão efetuada pelo governo francês. A obra tem cenas muito fortes, como a que mostra a estratégia dos imigrantes para driblar a polícia européia, queimado suas próprias mãos, suas digitais, sua identidade. O filme é daqueles que ao final te deixam com o grito entalado na garganta e nos mostram que a sociedade não é tão perfeita como a TV muitas vezes nos fazem crer, pelo menos para a maioria do povo.
Outros filmes lançados recentemente que também merecem ser visto são Film Socialism, de Jean-Luc Godard, que nos interpela fortemente acerca do estado atual do mundo; We Were Comunist, do diretor Maher Abi Samra, é um passeio pela memória de de quatro comunistas libaneses, que contam suas histórias de luta durante a guerra civil, seus sonhos e pesadelos com a situação atual do país. Para completar a lista de filmes políticos de hoje, dois filmes argentinos: Eva y Lola, da diretora Sabrina Farji, narra o encontro de duas jovens atrizes. Mas não são quaisquer atrizes. Quando a cortina cai, elas são duas “filhas”, expressão pela qual se tornaram conhecidos os bebês roubados nos centros clandestinos de prisão e tortura do país (veja reportagem na próxima edição de AND). Um pouco mais antiga e melodramática, mas também um retrato sincero da ditadura argentina, é a produção ítalo-argentina “Cómplices del Silencio”, de Stefano Incerti.

Esse blog virou um blog sério!

Amig@s, a partir de hoje esse blog virou um blog sério. Además también va a ser escrito en portunhol. Isso mesmo.

Agora vou publicar notas, reportagens, pequenos textos que escrevo para meus trabalhos como jornalista, algumas reflexiones da estudiante de Maestría de la Universidad de Buenos Aires e da professora de Português para estrangeiros.

Para começar, podem acompanhar meu trabalho em:

www.trombaseformoso.com
www.anovademocracia.com.br
blog.anovademocracia.com.br
http://twitter.com/#!/AnistiaOnline
http://www.facebook.com/anistiainternacionalbrasil

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Em cada parte de mim ou meu homem perfeito



Em cada parte de mim, eu levo um pedaço teu. Fecho os olhos, e posso sentir um cruzar de olhares e sorrisos. E, de repente, é como se eu sentisse um abraço teu novamente. No fundo, o homem ideal, pra mim, seria uma mescla de todos os que passaram pela minha vida e foram importantes.
No pulso, levo uma pulseira que me presenteou D.F, quando, doente, eu cuidava dele. Na mochila, a bússola que me regalou F, quando lhe dizia o quanto me sentia perdida no seu país. No coração, levo sempre a certeza de que H vai sempre estar aberto pra receber meu amor. E quando me deito, nua, na cama, tenho a certeza de que com J aprendi muito. Guardo o sorriso de todos e a felicidade que todos me deram, que trocamos.
A mistura perfeita teria: o cuidado de D.F, a sinceridade e a decisão de H, a militância e a decisão revolucionária de F e o sexo de J.
Sorrio. Foi a dor. Estou começando a achar que essa história de sofrer por amor vai me trazer bons frutos. Começo a retomar minha paixão por pensar e escrever sobre as futilidades tão essenciais da vida: os sentimentos e as emoções. Me acalma e me faz feliz relembrar o quanto, sim, amei e fui amada. Nem pareço mais a mesma de ontem. Ontem, sofrendo por F, reli as cartas de D.F, revi minhas fotos com H, e falei com J (a conversa foi, digamos, bastante recordatória....). E, de repento, percebo, como exagero tudo, o amor e a dor. Mas, no fundo, exagerar a dor encurta sua visita ao meu coração. Talvez não seja tão ruim assim. Exagerar o amor é mais complexo, passa a amar tudo e todos. Complexo, mas não ruim. Acho que se tem um defeito do qual eu gosto, do qual eu me orgulho, e que cultivo com muito carinho é meu jeito exagerado de ser. Nada que não seja exagerado serve pra mim.
Estou, agora, exageradamente atrasada com minhas malas. Estão aqui, olhando boquiabertas pra mim. A alma boa de Se-Chuan aberto, esperando terminar de ser lido (sugestão de leitura de F) e ouvindo Tribalistas (dos quais gostava H). Foi.

21 de dezembro de 2010
16h09
Buenos Aires, Argentina

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Pra sentar no banco da praça e viver de novo um grande amor


Aqui, pensando com meus botões outra vez. A cabeça, meio ao vento. O coração, sem entender, não sabe se estraçalhado ou se foi só um arranhão. Mas não importa. Agora, a única solução que vejo para acalmar o espírito é escrever.
Às vezes fico pensando no que é que move os seres humanos em suas relações com o outro. Nós, humanos, inventamos tantos nomes e teorias pra explicar os sentimentos, mas, na maioria das vezes não sabemos vivê-los. Simplesmente não nos deixamos, não nos permitimos amar. E AMAR, é sofrer, por quê não? Quem de vocês pode dizer que sempre amou e foi amado? Quem nunca passou pela dor da rejeição? Não sei se é exatamente uma dor, talvez seja apenas um desconcerto, um desentendimento. Eu tenho sérios problemas com a noção de dor. Até alguns meses atrás dizia que nunca havia sofrido por amor e que nunca havia chorado por nenhum homem. Até que eu chorei. Até que eu sofri. Sofri uma semana. Vivendo essa dor e querendo arrancá-la à força de mim, queria escutar a voz dele dizendo que não dava. Mas quando liguei, çoele disse que me amava. Um estranhamento total. E engraçado como essas histórias voltam a se repetir tão rapidamente e tão estranhamente. No fundo, parece que todas as nossas relações amorosas são muito parecidas e daí, talvez, venha o meu depreço pela relação homem-mulher amorosa. Deprecio, mas desejo ardentemente. Sim, pode chamar de contradição, de paradoxo, do que queira. Se me perguntam o que prefiro, vou sempre dizer que prefiro ficar sozinha e não amar homem nenhum. Mas meus olhos, meus ouvidos, meu coração, minhas mãos não sabem disso. Eles siguem querendo amar e só amar. Amar até morrer de amor. Eles não tem ideia do quanto amar dá trabalho.
Meu exagero já é figurinha conhecida entre vocês, amigos, certo? Acho que deve ser uma tarefa realmente difícil gostar de mim. E, vou contar isso pra vocês em segredo, tudo bem? O meu maior medo é de não ser amada. Mas acho, realmente, que é um medo que compartilho com a humanidade. E falo do amor de uma maneira geral. Quem não gosta de receber um abraço gostoso? Um carinho, um mimo? Quem não gosta de ouvir alguém gritando “EU TE AMO”, “EU TE ADORO”! E quando penso nisso, acho que nenhum homem me disse isso verdadeiramente. Lembrem que sou exagerada, tá? Mas às vezes, sim, acho isso mesmo. Parece que depois que acaba todo soa muito falso. Lembrem-se do parágrafo anterior (o depreço por esse tipo de relação amorosa). Mas sou muito feliz quando me lembro da minha constelação de amigos. E choro desesperadamente, não vejo a hora de pegar o avião e poder gritar de novo “EU TE AMO”, “EU TE ADORO”!, de ficar de bobeira conversando sobre nada, fico pensando se há algum sentimento mais doce e mais importante do que o da amizade. Porque um amigo nunca te diz “estou ocupado”, o amigo sempre dá um jeito e cuida de você. Ah, amigos, sinto muito demais da conta a falta de vocês aqui. Com vocês, não falta nada.
E o amor, e os homens? Não sei. Acho que sou muito boa pra ser amiga de homem, não pra ser mulher. Mas a vida me pede outra coisa, me pede pra viver, pra arriscar, pra tentar uma e outra vez mais. Porque os amigos estão aí pra secar minhas lágrimas e pra me amar. Homem é pra me fazer sofrer.
Meu exagero chega a ser cruel. Relendo o que acabei de escrever, me lembrei de uma carta que recebi de um ex, há quase um ano:
“T quiero porq cuando tengo noticias d ti o una simple correspondencia mi dia cambia, se hace menos gris q cuando comenzo, eres esa razon q no tiene sentido pero aun asi estremece mis sentidos, y me pregunto si es q son mis sentimientos, saber q alguien a distancia me extraña y piensa en mi me es muy grato, es como poder ver el verde d una hoja q cae para volverse ocre. T quiero por q aunq yo no me importe se q t importo y estas ahi, pero siento como si estuvieras aqui, no t escribo esto para hacerte sentir mal y distante, o porq no estoy junto a ti, solo para q sepas q aun vagas por mis pensamientos y y decirte lo maravillosa q eres, porq tu puedes cambiar mi dia, y aunq ha pasado ya bastante tiermpo para mi todo ello es como si fuese ayer. (D.F, 23/04/2009)

Sim, tudo é como se fosse ontem. Ainda posso me lembrar do sorriso de D.F e da sua maneira de cuidar de mim. Por mais que já não tenhamos notícia um do outro, acho que sempre ficará marcado em nós o que vivemos. E isso me conforta. Eu realmente escrevo na lógica reconfortante e esperançosa do humanismo. A história, claro, sempre precisa ter um final feliz. Mesmo que o feliz, no caso desse texto, seja pensar que talvez, alguém, um dia chegou perto de me amar e, principalmente, me fez muito feliz enquanto estivemos juntos.
E aí, posso sonhar, posso imaginar que amanhã vou caminhar de novo pelas ruas, sentar no banquinho daquela praça e tomar sorvete como se isso fosse a cosia mais fantástica do mundo! Depois, pensar que estou, de novo, insensatamente, vivendo um novo e grande amor, como se nunca houvesse pensado o que escrevi nesse texto.
Respiro fundo ao terminar de escrever, me sinto aliviada. Fecho os olhos. E como uma amiga me disse um dia: você tem uma capacidade incrível para matar e ressuscitar o amor por um determinado homem. E, de repente, me sinto ressuscitando mais uma vez esse amor que sinto há dois anos de uma maneira descompassada, desequilibrada, ineludível simplesmente porque que ele teve a audácia de se entregar profundamente a mim.
E agora leio o post anterior, dizendo que já não podia te amar. Mas é inevitável.


Ana Lúcia Nunes de Sousa
20 de dezembro de 2010

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Eu também sofro por amor

Todos os dias pensava em como eu te amava, em como você me completava.
E por mais que você estivesse longe, isso me fazia bem. Me fazia sorrir.
Eu olhava ao meu redor, e todos eram tão pequenos perto de você.
Aos poucos, essa sua presença certa na minha vida, foi ficando cada vez mais longe.
Eu já não podia sentir teu cheiro, ouvir tua voz e meu coração foi ficando apertado, deixando de bater.
O amor, eu sempre achei isso, eu invento. Inventei meu amor por você. É certo que havia materialidade na qual me apoiar. Fatos concretos. Mas como explicar fatos concretos aos sentimentos? Eu inventei esse amor e o vivi por um ano e dez meses.
Agora, eu preciso que ele vá. Eu preciso des-inventá-lo.
Nunca me doeu tanto fazê-lo. E eu sinto que talvez esse processo não seja tão fácil quanto os anteriores. Pela primeira vez, dói profundamente.
Mas a vida aqui me chama.
É primavera e já vem o verão.
Eu te amei muito.
Desculpe, mas eu já não posso mais.

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Novas divagações sobre o amor, no dia que faço 25 anos

Quem amo?
Me faço essa pergunta às vezes e não tenho resposta.
Me lembro das pessoas que achei amar, das pessoas que amo.
No caso dos meus amigos, da minha família, tenho a impressão de que sim, amo os e tenho tanta certeza disso que logo se vão das minhas indagações. As coisas, situações e histórias que amo, também. Viram fumaça.
A preocupação passa a centrar se nos homens que amei.
Faço 25 anos hoje.
Se morresse hoje, poderia dizer que amei três homens. E o pior é que me confundo nos tempos verbais. Não sei se são pretérito perfeito ou imperfeito. Não sei são presente. Gostaria que fossem futuro do presente, nunca futuro do pretério.
Às vezes tenho a impressão de que, na verdade, nunca amei nenhum dos três. Amei, talvez, o fato de amar. E amo as lembranças que tenho de cada um. Das ruas de La Paz, o prédio de Mujeres Creando, dos abraços, do cuidado. Assim como caminhar pela Lapa e por Santiago, escutá-lo tocando. Assim como amo as praças de Buenos Aires. Minha sorte é que não preciso escolher. Apenas viver. Uma vida onde não nos entregamos à simplicidade de viver um amor, sem muitas complicações, não é uma vida. É vegetar. É o amor quem nos tira da condicão de meros mortais. Tudo passa a outro nível de significação, os signos tornam se mais complexos. Essa impressão boba que temos de que vamos amar aquela pessoa a vida inteira. E vamos. Mas vamos amar a outras também. Sempre. Todos os dias. E é sempre assim. Levamos nossa vida tranquilamente, sem grandes sustos, até que um dia um alguém sem muita graça aparente, nos leva a uma existência superior. Nos faz sentir que flutuamos, que somos alguém mais na multidão, nos faz sentir que os minutos não passam e coisas que eu nunca parei pra pensar. Vou pedir ao meu próximo amor pra dar um tempo e pegar meu caderninho de notas. Preciso anotar tudo, talvez assim entenda melhor o amor. Mesmo que eu sempre diga que eu não me preocupo em entendê lo, apenas em viver, em sentir.
Mas meu pensamentos de divagação precisam ir. Tenho um roteiro pra escrever. Um filme para analisar. Já perdi a conta das leituras e das monografias do Mestrado. Morreu Néstor Kirchner, as coisas aqui vão se complicar, acredito. Hoje é dia de Censo. Escuto Cássia Eller. Olho pra tela do computador, pros textos na cama. Só queria um beijo numa praça e uma mão no meu pescoço. Eu deixaria tudo pra ir a Santiago e a Chicago. Pra La Paz não, tenho medo. Sinto que posso flutuar e não sei quem amo mais. Vou voltar pra vida real. Vamos lá, analisar Reconstruction, de Christoffer Boe. Mas o amor, será sempre meu. Minhas lembranças ninguém pode roubar. Só o tempo.

sexta-feira, 23 de julho de 2010

Eu sou o completamente outro ou para a página do meu diário

Tantas coisas tenho para dizer sobre isso que me custa começar. E isso, por vários motivos, pela língua (me mezclan los idiomas, la lenguas....), por la necesidad de escrever, de colocar para fora, de cuspir todas a reflexões que Derrida ocasionou em mim. No sé, todavia, no se trata de uma reflexión filosófica. Eu diria, antes, que são reflexões espirituais, internas, emocionais. Não me preocupo com os conceitos, exatamente. Mas, com o que os conceitos (nada conceituais) de Derrida me fizeram, me fazem perceber, perceber o estado atual das coisas.
Bem, eu, somente aqui na Argentina, me percebo como brasileira. Exatamente pelo não reconhecimento por lo cual paso aqui. Eu não me vejo pelas ruas e, pela primeira vez, me doy cuenta do que é o Brasil, pela falta dele. A verdade é que eu não compreendo e não aceito, convivo, com a cultura vigente aqui. Porque aqui não me reconheço, não me reconheço nesta cultura (falo de Buenos Aires estritamente e talvez de um ambiente nada muito favorável, como Faculdade de Ciências Sociais e ruas centrais).
E tampoco eles se reconhecem em mim. Aqui eu sou a estrangeira. Eu sou a outra, a completamente outra. E, pior, sinto a repulsa deles em relação a tudo o que eu sou, a tudo que sempre tive orgulho de ser. Sinto que não há, nenhuma, nem a mais mínima, vontade de aceitar o meu jeito de ser.
Aqui eu sou a puta, a fora da lei, a extravagante. E tudo isso por algo que é tão banal e básico em nossa cultura, em nossa forma de viver. Tudo isso pelo olhar, sorrir e falar. Eu olho, sorrio e falo. A tudo, com tudo e para tudo e todos. Sem discriminação. Quase sempre sem maiores interesses. Fazemos isso automaticamente. É como se nossos músculos faciais estivessem programados para sorrirem quando olham uma pessoa. E, antes, nossas pupilas, programas para olhar GENTE. E pior se falamos de outras coisas, da nossa maneira tão feliz de mirar e viver la vida, apesar de tudo. Nós precisamos cantar. E me olham, quando fazem iso....como se eu fuera uma criminosa. E me temem. Creio que temem que a leveza e o sorriso contagie a cultura deles. Manche a cultura deles.
Derrida fala da hospitalidade incondicional. A sorte é que essa hospitalidade é sempre uma promessa. Porque, na carne, não posso dar e nem sentirla.

22 de julho de 2010. Por volta das 21h. Em meio a aula do Mestrado.

sexta-feira, 16 de julho de 2010

Salut, Salud, Saúde: viva o grande amor!

Tem dias em que eu acordo acreditando que sim, que vou viver, de novo um grande amor. E, me lembro, com carinho, dos grandes pequenos amores que vivi. Sim, foram grandes pequenos amores. Grandes, porque intensos; pequenos porque não duraram muito (nao vou contá-los aqui no blog porque sou uma pessoa muito, mas muito discreta). Mas o que importa, sempre, é viver.

Penso na dor ou na incompletude de alguém que nunca tenha vivido um grande amor. Desses que nos fazem perder a cabeça e deixar tudo, tudo, para vivê-lo. Por isso, este post, é em homenagem a duas amigas que tiveram a coragem de viver um grande amor, talvez o maior da vida delas: a brasileira Lídia Amorim e a chilena Cláudia Campos.

Chicas, eu me sinto orgulhosa de vocês e, sinceramente, sinto uma pequena invejinha. Meu coração palpita só de pensar em viver um novo grande amor. E há que viver-lo, sem medo. Eu sempre digo, precisamos ir lá, viver, sentir, amar muito, e se quebrarmos a cara, consertamos, colamos, fazemos cirurgia plástica, mas precisamos viver (lembra disso, Lídia?).

Um dia sem amor, para mim, é um dia que não existe. Eu não existo. Não me sinto viva. Preciso, sempre, amar, algo ou alguém, e se eu conseguir, tudo e todos. Há quem pense que isso é carência ou incompletude, pode ser, não me importo, meu negócio é amar, é me sentir meio boba, flutuando, sorrindo e cantando à toa. E isso acontece, gente, muito.

Para quem tem muita dificuldade, tome uma boa cachaça de salinas, comece a sorrir mais, olhe-se no espelho e diga – primeiramente - que se ama, ouça canções de amor, fale de amor e faça amor. Faça muito amor. Até cansar. Até não aguentar mais. Ame.

Cláudia e Lídia, gracias. Gracias pela coragem de deixar tudo e de mudar de país e de vida para viver um grande amor.

Buenos Aires, 15 de julio de 2010. 13h14. Em meio a leitura de Espectros de Marx. O amor me estala. Acho que devo amar Marx e a necessidade urgente da revolução.

terça-feira, 13 de julho de 2010

Se hay noche, hay fiesta

Tá, vocês estão assustado, eu sei, eu nunca fui muito baladeira. Mas estou, realmente, com vontade de fazer este experimento sociológico. Eu sempre digo brincando que vim pra Buenos Aires fazer Mestrado e que pesquiso promiscuidade com metodologia participante. Quem sabe não é a hora de colocar isso em prática?
Mas, meus caros amigos, ainda falta muito pra que eu chegue nesse nível...Mas estou muito feliz por começar a esperar alguma coisa de um sábado à noite. No último sábado, finalmente, me senti bem. Bem, como nos sentíamos nos boliches de La Paz, se lembram? Eu bebi, dancei, curti muito, numa festa muito boa e.........., o melhor, na casa de um amigo argentino. Acreditam? Podem acreditar, mas é um dos únicos. E o melhor de tudo, das cerca de 300 pessoas que haviam ou passaram pela festa, calculo, nem 10% eram porteños. Mas um motivo pra festa ter sido boa. Bem, a festa foi uma despedida para o Nico e a Loli, franceses que estavam fazendo intercâmbio aqui. Festa à fantasia com nomes começados com S.....
Pra finalizar, deixo uma frase do Nico, que tá estampada na casa: Se hay noche, hay fiesta.

Desisti!

Não se assustem, meus amigos.
Eu não desisti de viver em Buenos Aires. Alguém, por acaso, esqueceu que eu sou casca grossa? Claro, por dentro, coração derretido, morrendo de saudade de todos vocês, de compartilhar meus comentários mal educados e picantes, e principalmente, os sonhos.

Eu estou re-vivendo a fase samba, da qual, na verdade, nunca saí. Mas, agora, que estou aqui, ouço e canto de uma forma diferente. Eu lembro das nossas noites sambando, fosse em Condor Iquiña, no Chop 10 ou em qualquer outro lugar onde desse para sambar um pouquinho. “Eu quero morrer numa batucada de bamba, na cadência bonita do samba....”. E, eu peço, somente, que Pachamama não permita que eu morra sem voltar pro meu país, sem poder sambar outra vez.

Mas, tô desviando o assunto, só para variar. Que jornalista (será?) mais prolixa....

Do que eu desisti? De viver rodeada por argentinos.
Primeiro, explico. Eu estou aquí desde abril, exatamente 10 de abril. E ainda não consigo entender e aceitar a cultura, o modus vivendi, ou as formas de sociabiliade (eu passei a semana lendo “Cuestiones fundamentales de Sociologia, de Georg Simmel....é hilário, e esse conceito é um dos conceitos trabalhados no livro, mas ele estuda até paquera, achei genial...). No começo, tentei manter-me longe dos brasileiros, queria ter amigos daqui, mas agora vi que meus compatriotas são o melhor povo do mundo. Não posso viver longe deles!

Explicando.....

A maioria das pessoas aqui, como havia comentando num post anterior, não se olha. E isso é chocante para nossa cultura tão zoiádora. Mas bem, além disso, confirmei a maioria dos pré-conceitos que tinha em relação aos hermanos.

E a confirmação veio, não somente do meu poder sociológico de observação participante, mas da boca deles, já que os que se tornaram meus amigos, assumem essas “características”.

E o quais seriam estas características? Eles são muito mal humorados, tenho a impressão de que já amanhecem “cagados” (expressão que usei muito na Bolívia e incorporei ao meu vocabulário, seria a tradução do nosso “enfezado”) e me pergunto porque carajos saem de casa.....ou por que é que nasceram.

Depois, a velha piadinha de “Vá a Buenos Aires e volto rico: compre um argentino pelo que vale e venda-o depois pelo que ele pensa que vale” (ai, isso me faz recordar do Cap. I do Capital: a mercadoria.....que li no mês passado, mas vou me abster de comentar....). Eles realmente se acham. São arrogantes, propotentes e brigões. Tenho impressão, às vezes, que o esporte nacional é brigar porque qualquer coisa. No Guia de ruas de Buenos Aires, eles inventaram: o doce de leite, a caneta, o transporte urbano (!), etc. Mas o mais uff de tudo foi ouvir que os argentinos inventaram a sociologia (durante minha aula de Sociologia da Cultura no Mestrado). E eles se acham os europeus do continente. Afinal, eles tem um cultura rebuscada, vão a museus, cinema, teatro, blábláblá.

Bem, esse é o retrato das pessoas mal humoradas, das quais desisti. Das quais quero manter a distância máxima permitida e manter somente as relações que forem realmente necessárias. Mas, felizmente, aqui é um lugar onde se encontra de tudo e para todos os gostos. Aqui, também, não posso reclamar, já encontrei pessoas maravilhosas que me ajudaram muito. E adorammmmmmmmm o nosso “jeitinho” brasileiro. São muito amáveis e hospitaleiros. E, muitas pessoas que eu definia como “mal humoradas” conseguiram transitar na minha escala de sociabiliade e se transformaram em pessoas queridas para mim. Eles são como nossas castanhas, primeiro precisa quebrar a casca dura e porosa para depois chegar no que é realmente bom. Mas, um dia, quem sabe, poderão aprender com a gente que “reclamar só das rugas” e que sorrir é o melhor tempero para a vida. Por isso, eu sigo, ando pelas ruas sorrindo como boba num frio insuportável e digo “Hola” pra todo mundo que me olha, do mendigo, traveco, ao Doutor.

10 de julio de 2010

domingo, 4 de julho de 2010

¿Por que me miras, boludo?

¿Por que me miras, boludo?
Esta seria a resposta básica de uma mulher argentina quando percebe que um homem está olhando para ela. É, aqui é muito estranho, pode dizer. Acho que uma das coisas das quais tenho mais saudade é olhar e ser olhada. Eu olho aqui, óbvio, faço questão, mas é diferente.
Pelas ruas de Buenos Aires, as pessoas caminham olhando para o chão ou para algo que não é você. Olhares não se cruzam. E quando se cruzam, muitas vezes se sentem ofendidos. Pelo menos esta é a impressão que eu tenho.
Bem, eles não entendem quanta poesia existe em olhar. Olhar e ser olhado. Em como, de repente, você pode sentir algo muito bom ao cruzar teu olhar com o de um velhinho e abrir-lhe um sorriso amável. Peraí, sorriso? Sorrisos na rua são proibidos. Eu tenho minhas teorias, acho que é o frio e a falta de sol.
O que seria da bossa nova sem o olhar?
Já dizia Tom Jobim:
"Esse seu olhar
Quando encontra o meu
Fala de umas coisas
Que eu não posso acreditar"

Bem, pra quem espera uma postura minha a respeito, conto o que faço. Eu olho, olho mesmo, com aquele olhar examinador que fazemos no Brasil, como quem examina a pessoa da cabeça aos pés. E é muito divertido ver como as pessoas se assustam. As putas e os travestis que trabalham aqui ao lado de casa, sorriem e eu digo como estan hermosas.....

Bem, vou continuar caminhando e olhando. Olhando muito. Não vou perder esse costume tão gostoso da nossa terra.

Como é viver a Copa do Mundo na Argentina....

Bem, atendendo a pedidos, explico como é viver o clima de Copa do Mundo na Argentina. Rapidamente, até porque agora que nos fudemos geral (nosotros y los hermanos) esse post já é pretérito perfeito.

Aqui eles são sim muito viciados por Futebol. Talvez possamos comparar à paixão brasileira pelo esporte. Atualmente o esporte nacional é o Pato (http://www.pato.org.ar/), mas há uma campanha para que o futebol tome o posto de deporte nacional.
Para a Copa, foi montado um verdadeiro espetáculo. Dois telões gigantes foram colocadas nas duas principais Praças da cidade e os bares ficavam lotados. À exemplo do Brasil, muitas lojas, escolas, etc, mudaram os horários de funcionamento. Porque, claro, a Argentina ia ser campeã...
Eu bem que queria que fosse, talvez assim eles ficassem melhor humorados....
Mas bem, até as quartas de finais, eles torciam para gente, torciam pra eles, tudo lindo, somos hermanos y blábláblá...
Mas eis que chegam as quartas de final e começa a aparecer a possibilidade de uma final Brasil e Argentina. Então, os hermanos passam a mostrar a verdadeira cara e incham contra nosotros. Eu estava na cova do leão. Vendo o jogo Brasil e Holanda na Praça San Martín. No intervalo do jogo, sambamos felizes. Era a quase certeza do hexa. Mas se o mundo gira, o futebol então...
Quando a Holanda vira o jogo, os hermanos saltam felizes e sambam. Pelas ruas, ao final do jogo, buzinaços e por onde eu passava me diziam "nao fique triste, inche para nosotros ahora"....e eu só respondia "vamos ver o jogo de amanhã, ok?". Chegaram ao cúmulo de me dizerem "o Brasil ter saído da Copa é melhor do que nós ganhemos o Mundial" e me encheram o saco (llenar las pelotos o los ovários en buen argentino) o dia inteiro.
Mas, ah, sinceramente, lhes fizeram bem um dia de alegria. Porque o que veio no dia posterior foi pior. Nem um pio. Ninguém nas ruas. Um silêncio mortal. É, a Argentina está fora. E por 4 a 0. Bem feito.